This is not charity. This is business

Grameen Danone

Há aproximadamente 30 anos, foi criado em Bangladesh um novo modelo de concessão de crédito produtivo a pessoas extremamente pobres, em especial para mulheres da área rural. Este crédito tinha como objetivo despertar nestas pessoas o espírito empreendedor, fazendo com que elas mesmas, através do fruto de seus trabalhos, abandonassem o status de pobres e vislumbrassem um futuro mais promissor. Para explicar a sistemática em poucas palavras, formavam-se grupos de tomadores que se reuniam semanalmente e se avalizavam mutualmente – aval solidário. Cada empreendedor era acompanhado de perto pelo agente de crédito comunitário que, além de dar orientações sempre que necessário, incentivava-os a pouparem. O resultado não poderia ser melhor: índice de inadimplência baixo e pessoas, antes totalmente excluídas do sistema financeiro, tornaram-se mais confiantes em tocar seu próprio negócio, vivendo em melhores condições de vida. De pronto, esta experiência foi considerada como uma bem sucedida ferramenta de combate a pobreza e se espalhou rapidamente pelos os quatro cantos do mundo.

De lá pra cá, muitas organizações não-governamentais – ONGs foram fundadas no mundo todo, espelhando-se neste modelo.

Vários organismos multilaterais formaram setores especializados no tema, como é o caso do competente CGAP – Grupo Consultivo de Assistência aos Mais Pobres criado pelo Banco Mundial. O microcrédito atraiu igualmente a atenção de diversos economistas e pesquisadores de áreas afins, contribuindo enormemente para a indústria do microcrédito com estudos pertinentes e desenvolvimento de ferramentas que contribuem para a melhoria da prática.

Como era de se esperar, com tal gama de atributos, o setor público foi facilmente seduzido pelo microcrédito. É aí que mora o perigo. Salvo poucas exceções, um bom número de governos criou programas de inclusão financeira com apelo populista, e até mesmo eleitoreiro, de forma, digamos, amadora, desprezando os princípios básicos da metodologia de microcrédito que asseguram impactos positivos e o sucesso do programa.

Subsidiam-se os juros, ou seja, repassam recursos a uma taxa abaixo dos praticados no mercado, pressupondo que o microempreendedor não possui capacidade de pagamento, o que, na maioria das vezes, é falso. E mais: anunciam que os créditos são destinados aos mais pobres dos pobres, afirmativa bastante suspeita. Normalmente, os verdadeiros resultados e a real efetividade destes programas são obscuros, mesmo que insistam em divulgar as benevolências de seus programas.
Há casos no terceiro setor não muito diferentes. Muitas ONGs de microcrédito nascem com o belo propósito social que, ao longo dos anos, se desvirtuam, tornando-se similares a financeiras, em nome de sua sustentabilidade financeira.

Certa vez, o doutor em economia bengalês Muhammad Yunus, mentor do então celebre modelo descrito acima e ganhador do prêmio Nobel da Paz em 2005, alertou-nos: “Isto não é caridade. Isto é negócio: negócio social com objetivo social o qual ajuda pessoas a saírem da pobreza”. Pronto. Em poucas palavras ele disse tudo: devemos associar competência, profissionalismo com a busca por resultados positivos sejam financeiros, mas, principalmente sociais.

Podemos citar o exemplo do grupo mexicano Compartamos. Nascida como uma associação sem fins lucrativos em 1990, transformou-se em banco em 2006 e, em 2007 realizou sua OPA (Oferta Pública de Aquisições), pondo suas ações na Bolsa de Valores do México. Com filiais no Peru e na Guatemala, atualmente contam com nada menos 2,5 milhões de clientes ativos e uma taxa de inadimplência de 4,2% (base dos dados: outubro/2013). Oferece crédito, poupança, plano de seguro e educação financeira até mesmo para quem está iniciando o primeiro negócio ou para quem não possui um garantidor. Frequentemente elogiado, mas também alvo de críticas, principalmente a respeito das altas taxas de juros e dos bons salários de seus diretores, o Compartamos é prova concreta de que negócio social é factível.

Há outros bons exemplos bem sucedidos de empresas sociais que derrubam o mito de que trabalhar por uma causa social e de forma solidária exige sempre a renúncia de lucro e de que empregados bem qualificados e produtivos é coisa apenas para as empresas puramente capitalistas. A economia solidária é, portanto, algo absolutamente legítimo e contemporâneo.

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