Aqui não é Bangladesh

Vemos que a indústria de microcrédito no Brasil importou – sem muito critério – dos países da Ásia e África a ideia de que deve favorecer a mulher na hora da concessão do Crédito. Lá, isso é absolutamente justificável; aqui, nem tanto.

O bangalês Muhammad Yunus, considerado o pai da nova metodologia de concessão de crédito aos mais pobres e ganhador do prêmio Nobel da paz em 2006, registrou em seu livro “O Banqueiro dos Pobres” a dura realidade das mulheres em seu país, onde a religião muçulmana contribui para a marginalização do sexo feminino. As mulheres não possuem os mesmos direitos à herança, são discriminadas no trabalho, além de sofrerem violência dentro e fora de casa. Nas classes mais baixas, não é raro encontrar jovens com rostos desfigurados pelo efeito de jatos de ácido por terem se recusado a se submeterem a violências sexuais ou casamentos arranjados. E, infelizmente, essa também é a realidade de muitas outras mulheres de países da Ásia e da África, onde a mulher é posta à margem da sociedade e vista como mera reprodutora. Muitas dentre elas são maltratados pelos maridos e até mesmo multiladas.

O estímulo ao autoemprego via microcrédito seria, portanto, uma ferramenta de liberação e de transformação de vida para essas mulheres e de formação de uma sociedade mais igualitária.

No Brasil, felizmente vivemos em um outro contexto. Atualmente, a brasileira tem-se sobressaído tanto no mercado de trabalho quanto no meio acadêmico, conquistando sua autonomia e liberdade de expressão. No que tange ao mercado de trabalho, vemos a entrada de mulheres em áreas antes reservadas exclusivamente aos homens, como é o caso da construção civil. Apesar de sermos uma sociedade ainda muito machista, violência contra mulher é crime. Evidentemente, a igualdade entre os gêneros ainda há muito a avançar; mas reconhecemos melhorias da sociedade brasileira nesse sentido.

Se em muitos países do outro lado do globo a concessão de microcrédito a mulheres á visto como uma estratégia de discriminação positiva, aqui, seria uma forma de recompensá-la pela maneira responsável que gerem o orçamento doméstico. Entretanto, respeitando nossa realidade, se quisermos fazer do microcrédito efetivamente uma ferramenta de combate à desigualdade social, o foco das instituições deveria ser o jovem pobre e negro. Este sim é o perfil daquele que sofre discriminação em nossa sociedade e que encontra dificuldade na inserção no mercado de trabalho.

A ideia do Yunus em levar crédito produtivo às mulheres, dando-lhes a oportunidade de transformar sua vida, aumentando sua autoestima foi simplesmente genial. A repercussão de seu modelo em todo o mundo foi merecida. Entretanto, adequações ao cenário local são necessárias. O país da “Casa Grande e Senzala” deve dar mais atenção aos verdadeiros marginalizados da sociedade. 

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